Guerreiro de terracota: o exército de Qin Shi Huang voltado a leste
Em março de 1974, uns lavradores a abrir um poço em Lintong, a leste de Xi'an no Shaanxi, tocaram em barro cozido em vez de água. O fragmento era uma cabeça humana, à escala real. Estavam por cima de um exército enterrado para Qin Shi Huang, o primeiro imperador da China, ainda virado para os antigos Estados inimigos a leste. Um guerreiro de terracota é um destes soldados de argila: oco, feito para a outra vida, outrora pintado, outrora armado com bronze verdadeiro, e nunca pensado para um pátio de vivos.
Argila oca, peças de molde e rostos acabados à mão
Um guerreiro de terracota é uma figura de barro à escala real, soldado, oficial, condutor de carro ou palafreneiro Qin, cozida em argila local e acabada para que dois rostos quase nunca se repetam. A World History Encyclopedia descreve-os um pouco acima da vida, cerca de 1,8 a 1,9 metros de altura, até 200 kg. A Britannica nota que o corpo se montava com secções cozidas à parte, e que o rosto recebia depois o detalhe um a um.
Os rostos parecem retratos. A oficina diz o contrário. A World History Encyclopedia fala de um leque limitado de peças de molde, uns oito tipos de cabeça e de tronco, com rostos, cabelo e mãos alterados depois da montagem. O exército parece individual porque esses últimos pormenores mudaram, não porque cada estátua nomeie um homem vivo.
As figuras não nasceram cinzentas. Os artesãos cobriam-nas de laca e pintavam pele, cabelo e pano. Ainda há vestígios de vermelho. Os investigadores da UCL notam que os guerreiros, e a maior parte dos encaixes orgânicos do mausoléu, levavam essa laca antes da cor.
Do poço de Lintong a três fossas a leste do túmulo
Qin Shi Huang (nascido Ying Zheng, 259–210 a.C.) unificou a China em 221 a.C. e governou como Primeiro Imperador até morrer em 210 a.C. A World History Encyclopedia data a dinastia Qin que fundou em 221–206 a.C. A obra do mausoléu começou ainda em vida. O túmulo interior, debaixo do monte em Lishan, não foi aberto. O exército de argila está em fossas satélite, não na câmara funerária.
A Britannica põe o exército a cerca de três quartos de milha (cerca de 1,2 km) da muralha exterior do túmulo, virado a leste, o rumo dos Estados que Qin tinha vencido. A World History Encyclopedia situa esse sector escavado a 1,5 km do mausoléu. Nas duas leituras os soldados ficam no flanco leste, entre o imperador e os velhos rivais.
Os arqueólogos distinguem quatro fossas principais. A fossa 1 é a maior. A World History Encyclopedia mede-a em 230 por 62 metros, 4 a 6 metros de fundo, e calcula uns 6000 figuras em corredores de tijolo. A fossa 2 guarda uma força mista. A Britannica conta mais de 1300 figuras de cerâmica (infantaria, carros e cavalaria). A World History Encyclopedia fala de uns 1400, numa fossa um pouco menor. A fossa 3 é o posto de comando. A Britannica conta 68 figuras, que lê como uma unidade de elite. A quarta fossa está vazia.
Os corredores tiveram tectos de madeira. A Britannica nota restos desse madeiramento por cima e à volta de muitas figuras partidas, e admite que a madeira pode ter caído num incêndio pouco depois da morte do imperador.
Voltados a leste depois da morte do Primeiro Imperador
O trabalho do exército era funerário. A World History Encyclopedia trata as figuras como guardas do túmulo, ou como escolta para a outra vida. A Britannica é mais de rumo: estão postos para a batalha, de cara ao quadrante de onde tinham vindo os antigos adversários de Qin Shi Huang. Não são ídolos de templo. São um exército de campanha parado em argila.
Cada soldado teve uma arma verdadeira. Espadas, lanças, bestas e setas sobrevivem em bronze. Hastes de madeira, aljavas e bainhas apodreceram quase todas. A ficha do Standing Archer do Met regista cerca de 40 000 armas e pontas de seta de bronze na fossa de onde saiu esta figura. O estudo da UCL de 2019 fala de até 40 000 pontas de seta no conjunto recuperado.
Sima Qian, a escrever no período Han, descreveu o túmulo por abrir como um modelo do império, com rios de mercúrio e um céu de constelações no tecto. A arqueologia ainda não testou a câmara. O exército de argila é a parte por onde ainda se pode andar.
Fragmentos cinzentos que já foram um exército a cores
O que o visitante vê hoje é quase só cerâmica nua. A superfície original era laca e cor mineral. A fila cinzenta nas salas de museu é um estado de conservação, não o acabamento Qin.
O bronze fez a mesma viagem. Durante décadas, as lâminas brilhantes de Qin foram creditadas a um tratamento antigo de crómio. Em 2019 a UCL e o Museu do Exército de Terracota argumentaram que o crómio nessas superfícies é contaminação da laca ao lado, não um verniz anti-ferrugem de propósito. Os ensaios de envelhecimento mostraram que o solo de Xi'an trata bem o bronze. O metal rico em estanho e o chão alcalino explicam mais do que um segredo de oficina perdido. Um dos co-autores ainda deixa espaço para mais trabalho técnico.
O Standing Archer que o Met mediu em 2017
O objecto mais claro num catálogo ocidental é o Standing Archer emprestado ao Metropolitan Museum of Art para a exposição Age of Empires de 2017. A ficha lista-o como dinastia Qin, 221–206 a.C., barro, escavado na fossa 1 de Lintong em 1974. Altura 177,8 cm, largura 73,7 cm, profundidade 40,6 cm, peso 200 kg. O cedente é o Emperor Qinshihuang's Mausoleum Site Museum. A figura não é compra do Met. Depois da mostra voltou a Xi'an.
Olha em frente, com as mãos postas como se ainda segurasse uma besta armada. Na fossa, os arqueiros de pé ficavam muitas vezes em volta dos que estavam de joelhos, para as duas filas dispararem à vez. Com 177,8 cm fica um pouco abaixo da gama de 1,8 a 1,9 metros que a World History Encyclopedia dá à infantaria. Os 200 kg batem com o tecto do peso que aqueles fornos tinham de cozer.
Quantos soldados, e o que o bronze ainda esconde
O total de trabalho da Britannica é uns 8000 soldados e cavalos à escala real. A World History Encyclopedia escreve mais de 7000 guerreiros, mais cerca de 600 cavalos e quase 100 carros, e noutro passo «até 8000». Nota também que o sector leste escavado ainda está incompleto. Os números vêm de uma escavação a meio, não de um inventário fechado.
O túmulo interior continua selado. Os 700 000 trabalhadores e as bestas escondidas de Sima Qian são narrativa Han, não um plano medido. O núcleo seguro é mais simples. Eram soldados de argila à escala real, enterrados a leste do Primeiro Imperador, virados ao rumo das guerras antigas, armados com bronze verdadeiro, e pintados para uma escuridão que nenhum visitante vivo devia entrar.
Na tua cena
Um guerreiro de terracota pede um corredor enterrado, em fila, de cara a uma ameaça, não um troféu solto no pátio. Mantém-no à escala real, deixa sítio para a fila seguinte, e deixa as mãos vazias sugerir o bronze que apodreceu ou foi roubado. Para um conjunto de túmulo chinês, vê o pack Chinese Ritual Relics.