Porcelana azul e branca: cobalto num vaso de corte
Em 1351, um homem chamado Zhang Wenjin, do condado de Yushan no Jiangxi, mandou um par de vasos de porcelana inscritos a um templo daoista em Xingyuan, a Wuyuan de hoje. A etiqueta da Sala 95 do British Museum trata essa dedicatória como a data mais antiga que se conhece numa peça azul e branca. O cobalto já ia debaixo do vidrado. Fica por perceber como o mesmo azul saiu do templo e acabou num jarro de ombros altos, de corte, pintado com a ave a que as fichas inglesas chamam fénix.
Um vaso azul e branco de Jingdezhen é porcelana branca pintada a cobalto, depois coberta com vidrado transparente e bem cozida. O jarro a que as fichas inglesas chamam meiping tem gargalo curto, bordo estreito e um corpo que incha no ombro antes de apertar no pé.
Ombros altos, gargalo curto e cobalto sob o vidrado
O meiping Cizhou do Metropolitan Museum of Art (22.91.2) desenha o perfil. Dum gargalo curto e direito a parede segue numa curva só, incha em ombros largos e redondos e depois aperta até uma base pequena e redonda. O museu diz que vasos desta forma há muito se conhecem como prunus vases, ou meiping, homónimo de «vaso belo». O exemplo Song qingbai de Cleveland (2017.20) usa o mesmo gloss: vaso de ameixa.
Os oleiros pintavam o corpo de porcelana a cobalto e cobriam a pintura com vidrado transparente. A Bottle with Peony Scroll Yuan do Met (26.271.1) é essa técnica num frasco à maneira de meiping: fabrico de Jingdezhen, meados do século XIV, 44,5 cm de alto, com gola de nuvens no pescoço, peónias no ventre e pétalas de lótus no pé.
Um ensaio do Met sobre cerâmica da Rota da Seda chama à ave dos jarros mais tardios a fénix mítica conhecida na China como fenghuang. Uma tapeçaria Qing no mesmo museu (25.109.2) acrescenta que o fenghuang é uma espécie à parte, e que só aparece em tempos de paz e prosperidade.
Jingdezhen depois de 1351
Jingdezhen fica no Jiangxi, junto a jazidas de kaolin. O ensaio do Met trata esse barro como a razão pela qual a porcelana chinesa podia sair dura e quase translúcida. O capítulo Yuan da Britannica diz que o cobalto sob o vidrado, provavelmente importado do Médio Oriente, se vê primeiro em fragmentos de Yangzhou do fim do século VIII ou início do IX. Houve uso ocasional no Song do Norte. A subida rápida veio com os Yuan.
A World History Encyclopedia data esses governantes mongóis em 1215–1368. O Met e Cleveland imprimem Yuan como 1271–1368. A Britannica encabeça a dinastia 1206–1368 e, noutras legendas, 1279–1368. As datas políticas mexem. Em 1351 os vasos David já provam que a técnica estava dominada em Jingdezhen. A terra de Zhang Wenjin, Yushan, fica a cerca de 120 km a sudeste dos fornos. O British Museum mostra agora o par na Sala 95. A Britannica ainda os lista na Percival David Foundation.
A World History Encyclopedia chama ao pigmento óxido de cobalto da Ásia Central, em especial do Irão. O frasco de peónias do Met mostra a mistura: um esquema da Ásia Ocidental, um enrolado de flores chinês e pétalas de lótus no pé.
Primeiro o vinho, depois um ramo de ameixieira
Cleveland é directo quanto ao ofício. Jarros desta forma primeiro levaram vinho. O nome «vaso de ameixa» vem dum ramo de ameixieira em flor metido na boca estreita. Um meiping numa mesa de palácio não é um pote de gengibre nem uma garrafa de pescoço comprido.
Um ceptro ruyi no Met (2014.202) toma a forma dum fungo e serve de jogo de palavras para «como desejares». O modelo do pack é um meiping estilizado: um fenghuang em voo entre nuvens em cabeça de ruyi, com bandas em ponta no ombro e na base.
Quando a corte quis o azul, e quando não quis
As páginas Ming da Britannica são a reviravolta. Depois de 1368 o reportório Yuan do azul e branco continuou, mas a loiça foi tida por demasiado vulgar para a corte. Desta loiça, nenhuma leva marca imperial de reinado até ao período Xuande, que a Britannica data 1425–35. No reinado Yongle (1402–24) já se punham marcas nas melhores porcelanas brancas e nos monocromos de cobre vermelho. No Xuande, os padrões Yuan, mais carregados, tinham dado lugar a dragões e flores de traço mais limpo. A World History Encyclopedia põe a mesma mudança no século XV: mais branco à vista, aves e flores ao gosto da pintura de paisagem.
Jingdezhen tinha o kaolin, o petuntse, a lenha e a água que a Britannica lista para os fornos do sul. Esses fornos imperiais andaram mal geridos nos reinados Jiajing (1521–67) e Wanli (1572–1620), mas as oficinas privadas continuaram a fazer peças vivas. A World History Encyclopedia regista porcelana a sair com seda e laca. O ensaio do Met segue o mesmo azul até Iznik e ao Irão. O vaso de corte e a loiça estrangeira partilham o pigmento, não o ofício.
O meiping Wanli do Met, 63,8 cm, com fénix
O jarro mais claro para se circular em volta é o Vase in Meiping Shape with Phoenix do Metropolitan Museum of Art, objeto 1979.109, na Gallery 204. O museu data-o do fim do século XVI ao início do XVII e do período com marca Wanli, impresso 1573–1620. A Britannica imprime esse reinado 1572–1620. O desvio de um ano é hábito de catálogo, não dois imperadores.
O vaso é porcelana de Jingdezhen pintada a cobalto sob vidrado transparente. Tem 63,8 cm de alto, 34,3 cm no ponto mais largo, bordo de 7,9 cm e base de 20,3 cm. Mrs. Eugene L. Garbáty ofereceu-o em 1979, em memória de Eugene L. Garbáty. O título do Met é o facto seguro do motivo: uma fénix num meiping, e o jarro é de período Wanli com marca. O jarro da Wildform é um meiping estilizado da mesma família, fénix entre nuvens em cabeça de ruyi e bandas em ponta, não uma peça de corte Wanli de 63,8 cm nem o frasco de peónias Yuan na mesma galeria.
Datas que não sossegam
O primeiro século do cobalto na China ainda se discute. A Britannica começa o pigmento em cacos de Yangzhou do fim do século VIII ou início do IX, e depois diz que só os Yuan fizeram o azul sob o vidrado subir depressa. As duas frases cabem juntas se os achados cedo forem experiências ocasionais e o século XIV for o momento em que Jingdezhen tornou a paleta banal.
As marcas de reinado são outra armadilha. A World History Encyclopedia nota que pôr datas imperiais Ming se tornou hábito. Um prato nessa página traz inscrição Xuande e data de 1540–1600. A secção de marcas da Britannica é mais seca: muitos nomes de reinado usaram-se com tão pouco critério que, se o período não for claro por outros meios, mais vale pôr a marca de lado. Uma linha Xuande na base não faz, por si, um vaso Xuande. Nenhuma destas páginas dá uma conta de meiping sobreviventes. O núcleo seguro é mais pequeno: Jingdezhen pôs cobalto de comércio sob vidrado claro; em 1351 a técnica já servia para uma oferta de templo com nome; as cortes Ming primeiro recusaram o azul e depois encomendaram-no.
Na tua cena
Um meiping azul e branco lê-se como mobília de palácio ou de templo, jarro fechado de boca pequena, não um pote largo de gengibre nem uma garrafa alta. Mantém o ombro alto e o gargalo curto, e deixa a fénix numa faixa de nuvens em vez de a mandar passear por um prato de jardim. Para um conjunto de corte chinês, vê o pack Chinese Ritual Relics.
Fontes
- Met: Vase in Meiping Shape with Phoenix, 1979.109
- Met: Vase in Meiping Shape, 22.91.2
- Met: Bottle with Peony Scroll, 26.271.1
- Met: Ceramics along the Silk Road
- Met: Panel with five phoenixes, 25.109.2
- Met: Scepter (ruyi), 2014.202
- Britannica: Chinese pottery, Yuan dynasty
- Cleveland: Meiping Vase with Carved Floral Sprays, 2017.20
- World History Encyclopedia: Ming Porcelain
- British Museum: Room 95 large-print guide