A máscara de bronze de Sanxingdui: um rosto de Sichuan
No verão de 1986, uns operários a tirar barro para tijolos em Sanxingdui, uma aldeia quarenta quilómetros a nordeste de Chengdu, em Sichuan, abriram duas fossas rectangulares. Os bronzes lá dentro já tinham sido partidos ou queimados. Entre eles havia rostos grandes demais para qualquer cabeça viva.
Uma máscara de bronze de Sanxingdui é um rosto fundido em liga de cobre dessa cidade da Idade do Bronze: sobrancelhas em ângulo, nariz largo, orelhas desmedidas e, nos exemplares mais famosos, pupilas que avançam para fora do olho. O Metropolitan Museum of Art mostrou depois um desses gigantes, emprestado pelo Sanxingdui Museum. Para que serviam os rostos, e porque é que foram à terra por volta de 1200 a.C., as fossas ainda não dizem.
Olhos que saem de uma concha de bronze
Estas máscaras são escultura, não adereço de festa. Uma Mask mais pequena do mesmo empréstimo mede só 26,6 cm de altura. A peça a que o Met chamou Mask with Protruding Pupils tem 66 cm de altura e mais de quatro pés de largura (cerca de 1,2 m). Um terceiro tipo, Mask with Protruding Pupils and Trunk, chega aos 82,5 cm. As três medidas partilham a datação Shang tardia. Não são um modelo único.
O tipo de pupila saliente é o rosto que a maior parte das pessoas imagina. O texto da exposição de 2002 do Met destaca essas pupilas e essa largura mesmo entre outros achados de Sanxingdui. Ao lado das máscaras saíram cabeças de bronze, algumas com folha de ouro. Uma Head mostrada em Nova Iorque media 42,5 cm. A Figure on Pedestal em tamanho natural, a única estátua grande de qualquer uma das fossas de 1986, subia a 260,8 cm e pesava 180 kg.
A cronologia da China no Heilbrunn junta esses bronzes humanoides a fragmentos de ouro e jade e a trombas de elefante da mesma descoberta de 1986. Os rostos pertencem a um conjunto escultórico, não às jarras de vinho das fundições Shang no vale do Rio Amarelo.
Duas fossas de barro a nordeste de Chengdu
Sanxingdui é o nome do sítio e da cultura da Idade do Bronze que dele tomou o nome. O Met situa a aldeia quarenta quilómetros a nordeste de Chengdu, capital de Sichuan. O Heilbrunn trata os bronzes de 1986 como uma cultura metalúrgica no oeste da China, contemporânea do Shang no nordeste e no centro-norte. Os reis Shang em Zhengzhou e Anyang deixaram vasos rituais de vinho e de comida. Sanxingdui deixou rostos e árvores.
A página da exposição data mais de sessenta obras de Sanxingdui no núcleo do século XII a.C., e o enterramento das duas fossas por volta de 1200 a.C. A linha de acontecimentos do Heilbrunn é mais larga: cerca de 1200 a 1000 a.C. Os intervalos sobrepõem-se. Não há um ano de nascimento para cada máscara.
Uma árvore de bronze de quatro metros, com aves nos ramos, saiu das mesmas fossas. Parte dessa árvore viajou com os rostos. Os depósitos tinham também ouro, jade, pedra, cerâmica e presas de elefante. Sichuan tinha sido tratada como margem cultural. As fossas de barro de tijolo mostraram uma cidade com indústria de bronze própria.
Rostos partidos e queimados antes de entrar na terra
A maior parte dos objectos das duas fossas tinha sido partida, queimada, ou as duas coisas, e depois disposta numa ordem fixa. O Met lê os traços comuns das fossas como dois actos rituais: as oferendas danificadas primeiro, depois enterradas. A função dos objectos, e a razão desse enterramento, continuam por esclarecer na própria página do museu.
O comunicado da mesma exposição chama às máscaras grandes imagens de seres sobrenaturais. É rótulo de curador, não um nome recuperado. Não há inscrição no bronze que diga a quem pertence o rosto.
O rito, se é que o foi, tratou o rosto como coisa que se podia destruir e ainda assim oferecer. Uma máscara com mais de quatro pés de largura nunca ia assentar num dançarino. Foi feita para se ver, e depois para desaparecer.
Depois de 1986: um empréstimo de Sichuan em Nova Iorque
Durante anos os rostos ficaram em Sichuan. Treasures from a Lost Civilization: Ancient Chinese Art from Sichuan esteve no Met de 6 de Março a 16 de Junho de 2002. O Seattle Art Museum organizou a digressão com o Bureau of Cultural Relics de Sichuan. Jason Sun, do departamento de arte asiática do Met, comissariou a montagem em Nova Iorque. Robert Bagley, de Princeton, editou o catálogo.
A página da exposição conta 128 obras e data o grupo de Sanxingdui no século XII a.C., com peças de túmulo mais tardias de Sichuan até ao período Han. O comunicado de 2001 diz 127 obras e data o conjunto do século XIII a.C. até ao século III d.C. Seis máscaras de bronze das fossas estavam à vista, incluindo a Mask with Protruding Pupils. As legendas da galeria de fotos ainda apontam o Sanxingdui Museum como proprietário. Nova Iorque nunca ficou com o bronze.
Mask with Protruding Pupils, sessenta e seis centímetros
O objecto mais claro é o bronze do Sanxingdui Museum a que o Met chamou Mask with Protruding Pupils, período Shang tardio, século XII a.C. O cartão da galeria dá a altura: 26 polegadas, 66 cm. A página da exposição acrescenta a largura: mais de quatro pés. Em 2002 ficou nas galerias de exposição temporária do primeiro piso do Met.
Põe essa altura ao lado da Mask de 26,6 cm e da máscara com tromba de 82,5 cm. Os fundidores do sítio trabalharam vários tamanhos de rosto. As pupilas são o traço com que o Met isolou esta peça. O resto do rosto segue o mesmo programa angular da figura no pedestal: sobrancelhas pesadas, olhos salientes, nariz largo, queixo em planos. O bronze ficou em Sichuan. A ficha do empréstimo ainda se abre.
Datas do Shang tardio, e porque é que Jinsha não é este sítio
Duas páginas do Met já discordam por um século nas margens. O texto da exposição prefere o século XII a.C. e um enterramento por volta de 1200 a.C. O Heilbrunn escreve cerca de 1200 a 1000 a.C. Os dois intervalos devem ficar à vista.
Um sítio mais tardio de Sichuan, Jinsha, cai noutro século na literatura técnica. Um estudo da UCL sobre bronzes rituais chineses data Jinsha nos séculos XI e X a.C., no arco Shang a Zhou Ocidental, e trata Sanxingdui como um conjunto à parte, com as suas próprias ligas. Os ornamentos de ouro de Jinsha não são as máscaras de Sanxingdui de 1986.
As contagens também são frouxas. O Met fala de centenas de objectos nas duas fossas e de muitas máscaras de bronze, seis das quais viajaram. Não publica um censo das máscaras sobreviventes. O que está firme é mais estreito: uma cidade da Idade do Bronze a nordeste de Chengdu, duas fossas abertas em 1986, e uma máscara de 66 cm com mais de quatro pés de largura, ainda do Sanxingdui Museum, uma vez vista em Nova Iorque.
Na tua cena
Uma máscara de Sanxingdui lê-se como um rosto ritual grande demais para quem o vestisse, posto onde o rito o pudesse ver antes de desaparecer. Deixa parede ou plataforma para as orelhas e para os olhos que avançam, e mantém o metal na mesma família dos outros bronzes de corte e de templo chineses ao lado. No pack Chinese Ritual Relics há o conjunto completo.
Fontes
- The Metropolitan Museum of Art: Treasures from a Lost Civilization (exhibition overview)
- The Metropolitan Museum of Art: Treasures from a Lost Civilization (photo gallery)
- The Metropolitan Museum of Art: Treasures from a Lost Civilization (press release, 5 September 2001)
- Heilbrunn Timeline of Art History: China, 2000–1000 B.C.
- UCL Discovery: Wood and Liu, A Multivariate Approach to Investigate Metallurgical Technology (2022)