Oferendas do templo no Uruk tardio: o vaso de Warka em alabastro
Em abril de 2003, saqueadores arrancaram da vitrine do Museu do Iraque, em Bagdá, um vaso alto, todo esculpido. O pé partiu com o suporte. Em junho, três jovens trouxeram de volta catorze fragmentos de alabastro, num Toyota vermelho. Não era um pote de arrecadação. Era o vaso de Warka: um recipiente esguio de alabastro, em relevo, talhado por volta de 3000 a.C. para um complexo de Inanna em Uruk. Warka é o nome árabe moderno do tell onde esteve a Uruk suméria, no sul do Iraque.
Alabastro, três frisos e os feixes de canas
O vaso de Warka, também dito vaso de Uruk, é um recipiente de alabastro com pouco mais de um metro. A World History Encyclopedia situa-o no período de Jemdet Nasr, grosso modo de 3000 a 2900 a.C. O relevo parte-se em três frisos horizontais; há quem conte quatro, porque uma faixa estreita corta o andar de baixo.
Em baixo vêm a água, as plantas e as searas: tamareira, cevada, trigo. Por cima dessa faixa, carneiros e ovelhas marcham de perfil, uns a seguir aos outros. No friso do meio, homens nus avançam com taças e jarros de fruta e de cereal. O de cima já não é um padrão: é uma cena. Uma deusa está diante de um santuário marcado por dois estandartes de feixes de canas, o signo de Inanna. Um homem de saia cerimonial conduz o cortejo até ela. Um servo nu oferece uma taça com o fruto da terra. A pedra era pesada e rara, e lia-se de baixo para cima: o que nasce no campo sobe até à deusa.
Da escavação de 1933 à data de Jemdet Nasr
Arqueólogos alemães desenterraram o vaso em fragmentos, entre 1933 e 1934, num complexo de Inanna em Uruk. A World History Encyclopedia data-o do período de Jemdet Nasr, cerca de 3000 a 2900 a.C. Há catálogos com um intervalo um pouco mais largo, por volta de 3100 a 2900 a.C. O intervalo honesto é de estilo: o vaso pertence ao Uruk tardio, quando as cidades do sul da Mesopotâmia montavam economias de templo e ensaiavam a escrita.
Uruk era então um dos maiores centros urbanos. A World History Encyclopedia descreve-a como polo de comércio e de administração no fim do quarto milénio e no início do terceiro, com o bairro de Eanna votado a Inanna. O vaso cabe nesse momento: pedra monumental ao serviço da deusa da cidade.
O cortejo até Inanna, em Eanna
Inanna, mais tarde Ishtar para quem falava acadiano, era a padroeira de Uruk. O complexo de Eanna recebia oferendas que ligavam a colheita à graça da deusa. O vaso de Warka grava essa lógica. Plantas e rebanhos sobem os frisos até um rei-sacerdote entregar o fruto à deusa, à porta do santuário.
Muitos guias leem a cena de cima como um casamento sagrado entre rei e deusa, rito para a terra dar. Os especialistas tratam essa leitura como disputa. O que o relevo mostra, sem dúvida, é um cortejo de oferendas que acaba no santuário de Inanna. O que está seguro é o ofício: o governante mesopotâmico, como sumo sacerdote, apresenta a riqueza do campo à deusa que tem a fortuna da cidade.
A World History Encyclopedia chama-lhe vaso votivo ou sagrado: pedra de cerimónia, não loiça de mesa.
Da vala alemã ao saque do museu e à volta
Depois da escavação, o vaso entrou no Museu do Iraque, em Bagdá. Já na Antiguidade se tinha partido e sido remendado. Aos saqueadores de 2003 isso pouco importou. Deitaram a vitrine abaixo e arrancaram a peça da base reconstituída.
A 12 de junho de 2003, três homens sem nome chegaram ao portão do museu com catorze pedaços numa manta. A World History Encyclopedia diz que o pé e a orla de cima sofreram muito no roubo. Os restauradores voltaram a montar o vaso, e ele regressou à Galeria Suméria. O episódio fez de uma oferenda do fim do quarto milénio um símbolo do património iraquiano em risco e, depois, de uma recuperação incompleta. O original continua em Bagdá.
O vaso de Warka no Museu do Iraque, que ainda podes ver
A âncora é o próprio recipiente, na Galeria Suméria do Museu do Iraque, em Bagdá. A World History Encyclopedia descreve-o com cerca de um metro, em alabastro, do período de Jemdet Nasr, 3000 a 2900 a.C. Nas fotografias do museu, ao lado de um visitante de pé, a escala fica clara: isto era monumento de templo, não loiça.
Lê o relevo de baixo para cima. No friso inferior, plantas de pântano e uma fila de carneiros e ovelhas. No do meio, portadores nus com taças e jarros. No cimo, Inanna diante dos feixes de canas do santuário; um homem vestido conduz a oferenda e um servo apresenta uma taça de fruta e de cereal. De perto vêem-se as linhas da reparação antiga: o vaso já importava muito antes de haver museus.
Entre os recipientes de pedra de Uruk, este destaca-se pelo comprimento da narrativa e pelo tamanho. A World History Encyclopedia conta-o entre os mais antigos relevos narrativos mesopotâmicos da cidade que também deu a bacia de Uruk e a máscara de Warka.
Casamento sagrado, frisos e o que ainda se discute
Nem tudo no vaso está fechado. O homem vestido lê-se em geral como rei ou rei-sacerdote, mas a pedra não lhe põe nome. A figura feminina identifica-se quase sempre como Inanna pelos feixes de canas; etiquetas mais velhas chamaram-lhe sacerdotisa. O número de frisos muda conforme se juntam ou se separam as faixas das plantas e dos animais. As datas oscilam mais de um século, conforme se privilegia a camada do achado ou os paralelos de estilo.
O peso e o diâmetro exato da boca variam nas notas publicadas, mas a escala não mente: o alabastro teve de ser extraído, carregado e trabalhado para um só uso cerimonial. Quando um guia fala em casamento sagrado, trata isso como leitura, não como inscrição.
Na tua cena
Um vaso de Warka lê-se como móvel de templo, não como loiça. Dá-lhe altura (quase à escala humana), uma base de pedra ou um plinto, e espaço para o olho subir os três frisos, das plantas e dos rebanhos ao santuário de Inanna marcado por canas. Para um conjunto de templo mesopotâmico, vê o pack Mesopotamian Temple Relics.
Fontes
- World History Encyclopedia: The Warka Vase
- World History Encyclopedia: The Warka Vase at the Iraq Museum
- World History Encyclopedia: Uruk
- World History Encyclopedia: Warka Vase bottom register
- World History Encyclopedia: Warka Vase middle register
- World History Encyclopedia: Offering to Inanna, Warka Vase top register
- Encyclopaedia Britannica: Warka Vase